segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Cleide Sonhava em Ver a Madonna



Foram necessários dois dias para Cleide encontrar uma lan house 24 horas em seu bairro, já que o seu PC antigo era muito lento para competir com tanta gente. Fico aqui a noite toda, mas sem ingresso não arredo o pé! Em vão: a loirona da Mooca insistiu da meia-noite às nove tentando seu ingresso pro show da Madonna, mas sua tela nem chegou à terceira etapa. Time For Fun filha da puta! Fiquei com a bunda quadrada pra nada! E foi pro trabalho bufando (trabalhava com telemarketing), onde passou o dia tomando café em cumbuca. Faz bem forte aí, Dona Solange. Tô pregando os zóio. E claro, foi mais grossa com os clientes do que já costumava ser. Um minuto que vou transferir sua ligação ao setor responsável, senhor. Aguardava 2 minutos e desligava o telefone.

A paixão que Cleide Maria Souto sentia por Madonna já durava décadas e décadas, mas quando a cantora veio ao Brasil pela primeira vez, ela era menor de idade e seu pai cortou suas asinhas. Vai em show de vagabunda que queima cruz, não! A garota, no auge dos seus dezesseis anos, teve que engolir aquilo a seco e picotou o laço de Bordeline em centenas de pedaços, chorando doído. Esse desgraçado ouve Nelson Gonçalves e eu sou obrigada a escutar. Velho cachaceiro filho de uma égua!

Anos se passaram e Cleide nunca deixou sua ídola de lado. Madonna ficava loira, Cleide também. Madonna apanhava de Sean Penn, Cleide mandava seu então namorado esmurrar a cara dela. Vai com força, Waldemar, me cola os brinco! Até quando Madonna lançou seu livro Sex, Cleide não deixou barato: pra imitar uma das fotos, ficou nua numa estrada do interior, pedindo carona. E explicava aos caminhoneiros afoitos: Não, brigada. É nu artístico. A devoção era tanta que até seus cachorros haviam sido batizados com os nomes dos filhos da cantora mais famosa do mundo. Cleide tinha o Rocco (um cocker spaniel
marrom, cheio de manias) e Lourdes Maria, uma vira-latinha que achara na rua. E não é que a lazarenta lembra mesmo a menina? Até bigode a vagabundinha tem, dizia rindo, cheia de orgulho.

Como Cleide preferiria morrer do que perder a nova turnê da Madonna, resolveu fazer das tripas coração. Virou consultora da Pierre Alexander pra ganhar um dinheiro extra e pediu contribuições às amigas, que não lhe deram nada além de desculpas. Não faz mal, dou o cu na esquina, mas eu vou! Estava tão predestinada que havia trocado a pista normal (de 250 reais) pela VIP (720 reais). É o sonho da minha vida, não vou querer menos do que o melhor. Cleide conseguiu o dinheiro rapidinho, graças às duas fragrâncias da linha Luciana Gimenez. E se mandou pra um dos pontos de venda, o Ginásio do Ibirapuera, por onde permaneceu por 48 horas. Levou barraquinha, desodorante, creme capilar Yamasterol e uma mochila cheia de guloseimas: bolacha água e sal, presuntada, litros de água e um pacote de Dadinho. De fraqueza eu não morro. E escondeu o dinheiro na calcinha, enrolado num saquinho plástico. Só vai ter viado mesmo, não vão meter a mão na minha precheca. E enfrentou bravamente sol, chuva, calor, frio, gente tentando furar a fila, policiais aos gritos. Nem o Papa me tira daqui!, decretou a Rosalba, uma amiga que havia feito na fila e que tomava conta de seu lugar toda vez que Cleide precisava ir ao banheiro. Merda de bexiga pequena!

Às seis da manhã do domingo, quando a bilheteria foi aberta, um funcionário vindo do além passou com uma placa: Os ingressos VIPs estão esgotados, não iremos vendê-los neste local. Obrigado pela compreensão. Cleide gritou tão alto que até a polícia ficou assustada. Pobre não tem vez nem quando tem dinheiro, porra? E foi pra casa fedida, suada, exausta, enfurecida e inconformada. Porque eu não gosto da Joelma? Tomou um banho e dormiu até segunda-feira, sem antes deixar de repetir. Podem mudar meu nome pra Creuza se eu não for ver a Madonna!

Como nada tira uma leonina de sua meta, Cleide começou a correr atrás de cambistas, até que achou um no orkut: 1800 reais por um VIP? Tá achando que eu cago dinheiro? Mas, como não havia outra saída, a loira de quadris largos e peitos imensos apelou para a única alternativa que lhe sobrava. E começou a se prostituir no centro. Cinqüenta eu chupo, cem eu dou e por duzentos pode comer meu cu. Em uma semana, a fã tão sofrida estava com o dinheiro em mãos (e sentando de ladinho). Caralho, como dói dar a bunda! Mas se sentia realizada.
Marcou com o tal cambista, levou o dinheiro e (nem acreditando) estava segurando o convite VIP pro show de sua amada. Obrigada, Jesus! Você é mais!

Dezembro passou voando e, quando viu, Cleide estava na fila do Morumbi. Tô até levando sal por causa de pressão baixa. De tão cedo que chegou, acabou ficando colada ao palco, o que a garantiu uma visão privilegiada. Quero sentir o cheiro do bacalhau dela. Às 22 horas em ponto, as luzes se apagaram e a multidão veio abaixo.
Uuuuuul! Cleide quase teve um colapso. Me chama de lagartixa e me joga na paredeee! Até Madonna entrar no palco. Já na primeira música, a Material Girl conseguiu frustrar aqueles vinte e cinco anos de devoção. Que merda é essa? Cleide havia se esquecido que, como nós, os famosos são mortais e também envelhecem. Parece um esqueleto com o cabelo do Ovelha! E começou a gritar: Dança, sua vaca! Bate uma siririca! Vira de ponta-cabeça! Larga dessa guitarra, biscate véia! Foi o maior desapontamento de sua vida. Cleide agradeceu por Madonna não dar bis em seus shows. Mais uma música dessa desafinada e eu jogava meu tamanco na testa dela.

Cleide Maria Souto nunca mais quis ouvir falar em Madonna. Tocou seus dois cachorros pra fora, Vocês que se virem! Rua!, quebrou todos os discos e rasgou os pôsteres da cantora, que cobriam quase que completamente seu quarto. Adeus, sua demônia. Adeus para nunca mais.

Todo seu sofrimento teria sido em vão se Cleide não tivesse pêgo gosto pela coisa e virado prostituta. O que, ganhar 500 mangos por mês pra ouvir desaforo de cliente? Agora tiro 5 pau e só preciso dar uma buceta aqui, um cuzinho alí (coisa que ela havia descoberto gostar, depois que experimentar o KY Warming), algumas chupadinhas... Por causa de Madonna, Cleide finalmente conseguira sair da casa dos pais, pagar uma faculdade decente e comprar tudo o que sempre tivera vontade. Perfume, agora, só francês. Toque de Amor meu cu! Da experiência que teve com Madonna, Cleide não guarda rancor algum, pois graças à cantora, Cleide Maria Souto descobriu a dura realidade do Brasil: de que, nascendo pobre e sem algum tipo de talento, só virando puta é que se chega lá.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Os Ouvidos de Dizolina Não Eram Penicos



"Esse lindo pôr-do-sol púrpura me faz lembrar de uma tarde agradabilíssima que tive com Marietinha Gonzaga de Orléans e Bragança no sul da França, Gruissan. Era a terceira vez que eu visitava aquele vilarejo encantador e a claridade se despedia com espasmos, como as festivas borbulhas de minha Clicquot Vintage Réserve", dizia Ernesto, enquanto escrevia no diário com sua caneta-tinteiro. E continuava, repetindo em voz alta. "Ahh, o gosto até me veio à boca, que nostalgia! Eu também daria um dedo do pé pra tomar uma chá amarelo com Benedita Lamarque na Oxford Street novamente...". Dizolina, a empregada (ou secretária do lar, como ele gostava de frisar), varria o piso escuro. "Filha da puta da Karilene que não me arruma aquele otro emprego!" Ernesto, sabendo que aquilo irritava Dizolina profundamente, prosseguia. "Essa poeira que sobe em minha frente, desmascarada pelo sol, me leva de volta à Bruxelas. Que felicidade seria um reencontro com Manoela Mena Barreto naquele lindo castelo antiqüíssimo, onde gargalhamos por duas semanas." Dizolina apertava o cabo da vassoura. "Nessas hora que eu fico enjuriada de sê pobre. Mais uma dessa e eu jogo minha Havaiana nele." Ernesto então encheu o peito, realizado. "Como deve ser triste a vida de quem nunca saiu do país. Me lembro dos olhinhos de Bárbara Vieira Souto ao ver a Disneylândia pela primeira vez, aos dois anos de idade". Dizolina jogou o tronco pra trás. "Dois ano de idade? Nem aproveitá a desgraçada aproveitô!" E, como sempre fazia após enfezar a empregada, Ernesto a agradou. "Quer levar minha frost-free super luxo pra casa, Dizolina? A geladeira cromada chega hoje". Excitada, Dizolina até esqueceu que fora espezinhada. "É claro que quero, benzadeus! A porta da minha Electrolux tá descolada. E como eu sô sozinha, nessas hora não tem quem consertá..." Ernesto a interrompeu. "Chega! Não quero saber! Peça para o motorista levá-la, ao anoitecer".

Ernesto Manoel de Barros era um paisagista muito famoso da capital paulista. De infância humilde, prometera aos nove anos que conheceria o mundo, o que não foi difícil. Por ser desbocado e só falar besteira, Ernesto era a companhia de viagem perfeita para suas clientes. Viúvas, na grande maioria. "Ernesto é minha caixa de Lexotan", costumava dizer uma delas, abraçando-o. O problema era que Ernesto não tinha pra quem contar suas vantagens. E sobrava pra Dizolina. "Vai dá esse cu, invéis de azucriná minha oreia! Homi safado...".

Por onde ela ia, Ernesto ia atrás. (Na cozinha) "Esses azulejos pintados à mão me fazem chorar de emoção, foram feitos por uma indiana muda enquanto eu e Verinha Maltês rezávamos em um templo divino. Que delícia minha quinta vez na Índia!" (Na sala de estar) "Como essas gominhas me lembram a Tailândia, huuum! Engraçado relembrar Teca Páes de Menezes engasgada com aquilo. (No corredor) Olhando esse tapete de pele, penso em quanto passei calor em Johannesburgo. Talvez por isso só fui à África uma vez. Eu e Leonorinha Macedo achamos over aquele seis estrelas." (Na piscina) "Esse jardim japonês chega a me arrepiar, dá uma olhada! Preferi ter ido ao Japão com a Ruth Cintra do que com a Rachel Marcondes. Mais parceira na hora do saquê imperial". Dizolina só chupava o nariz. "Esse discarado me escurece as vista. Tem hora que parece que as perna vai faltá".

A geladeira cromada de Ernesto chegou e, como de costume, o paisagista foi urinar no objeto antigo antes de colocá-lo para fora. Ernesto levou uma descarga elétrica superforte que subiu pela urina até atingir seu corpo, fazendo-o desmaiar e engasgar com a própria saliva. Morreu logo em seguida. Dizolina, vendo a cena, (quase) se apavorou, mas pensou bem e enterrou o corpo. "Vai ficá aqui do lado da piscina. Não gostava tanto de jardim, lobisome?"

Hoje, quem sofre é Sebastiana. A vizinha de Dizolina não consegue cumprir um único afazer doméstico sem ter que ouvir vantagem da ex-empregada, que acabou embolsando o dinheiro de Ernesto. "Esse balde escorrendo me faz lembrá da terceira veiz em Foz do Iguaçú, quando almocei na mesa da Dona Claudete. E essa sua santa? É de Aparecida? Acho uma judiaria quem não conhece Aparecida... Misericórdia, Bastiana! Bota um reparo nessa capa de privada! Da cor da minha cidra prifirida. E esse vasinho de refrigerante? Credincruiz da época que eu tomava tubaína...".


Conto inspirado na seguinte notícia:

http://noticias.terra.com.br/popular/interna/0,,OI1619287-EI1141,00.html

terça-feira, 29 de abril de 2008

Fátima Resolveu Explodir a Brasileirinhas



O galo grudado na geladeira havia mudado de cor, acusando que já se passava dos trinta e nove graus. Fátima e Josiel estavam tentando se refrescar de todo jeito, mas nem a Coca-Cola gelada, nem os pés entregues ao chão de cimento batido resolviam a situação. O casal assistia "Tudo É Possível" e tentava desvendar as façanhas do Mister M, mas o ar quente que reinava na sala os desconcentrava. "Eu tô que não me agüento, Josiel. Essa telha Eternit torra a gente. Acho que vou ficar é de biquini." O namorado se aproveitou da situação. "Fique pelada de uma vez". Fátima gostou da idéia, mas não conseguiu entrar no clima por causa do calor. "Tô tão esquentada que não consigo saber se é tesão ou suadô". E roçava as pernas no namorado, mas brochava ao sentir o próprio suor no couro do sofá marrom-glacê, principalmente quando raspava as canelas num buraco de espuma. "Deus me livre morar num lugar frio, Josiel. Mas tem hora que calor demais acaba com a gente". E se levantou, trocando-se em seu quarto. Ao retornar, amarrando um maiô Catalina, teve uma surpresa dupla: Josiel havia ligado o grande ventilador azul (que ela jurava estar quebrado) e ainda havia colocado um pornozinho pra rodar. "Esse é novo, Fatiminha. Pecados & Tentações. É com uma ex-atriz da Globo". Fátima, com aquele jeito sem graça de quem sabe que vai transar, seguiu falando. "Leila Lopes? Sei lá quem é essa. Não é a Rosana?" Sem resposta. Fátima já havia perdido Josiel para a primeira cena. Quando tudo estava engrenando e o pedreiro arrastava a parte de baixo do maiô da namorada, um grito encheu o lugar. "FILHO DA PUTA! É você comendo ela!"

Não adiantava ele negar, então ele chegava a rir de nervoso. "Cê tá louca, Fátima? Sou eu lá, não!" Mas a namorada estava cega, surda e muda de ciúme. "Não tem nem vergonha, seu descarado? Olha lá: língua igual, bunda igual, esses pêlos enroladinhos do seu saco, é você, filho da égua!" A situação quase ridícula o fazia rir mais ainda, o que enfezava a vendedora. "Vai zoando, vai, lazarento. Eu vou te capar!" E tentou quebrar o aparelho de TV, tamanha era a ira. "Essa vagabunda da cara torta falando da sensação de rodar, rodar, rodar... Ela vai rodar é na minha mão pra largar de ser folgada". Josiel, em vão, tentava abrir os olhos de Fátima. "Olhe para a TV, minha linda. Você tá variando?" Mas a namorada, se tremendo de cima abaixo, não via diferença alguma. "Alá! Dá até pra ver essa verruga do seu pinto, seu corno". Fátima se trocou, pegou sua bolsinha de urso e saiu batendo os pés. "Isso não vai ficar assim!" Como era domingo, voltou em alguns segundos. "Esqueci que tá tudo fechado, mas amanhã você tá fodido".

Não eram nem nove horas quando Fátima Maria Manzano chegou no escritório da Brasileirinhas, produtora de filmês pornôs. "Eu quero saber aqui quem foi o desgraçado que contratou meu namorado". E seguiu descontrolada. "Cadê a Leila Lopes?" Marriete, uma secretária de coxas bem grossas, cabelos crespos e saia curta, pedia calma. "Minha senhora, os atores não ficam aqui com a gente. Por favor, tente se acalmar. Quem é o seu namorado?" A vendedora, possuída, tinha certeza que aquilo era um complô. "Ah, sua safada! O Josiel também te comeu, foi?" Marriete tirou o microfone da cabeça, ligou para os seguranças e continuou falando com ela. "Não sei do que a senhora está falando, eu não sou atriz". Aquilo só alimentava Fátima. "Ainda bem, né? Porque, com essa atuação, nem pra pornô você serve". Marcião e Carneiro logo chegaram para colocar Fátima Maria pra fora. "Não me apertem, seus filho duma égua! Vocês vão me pagar!" E, como muita mulher traída, Fátima cumpriu sua promessa: fez uma roda com gasolina em volta do escritório todo e ateou fogo. Em menos de cinco minutos, Jorge Van Damme, Pablo Picasso, Gretchen e mais alguns nomes conhecidos das prateleiras de filmes saíram correndo do local. "Fogo! Fogo!" Até o Anão Tevez, antigo ator do Pânico, apareceu nas labaredas. Fátima aproveitou pra ser cruel. "Pedala agora, coisa feia!" Em questão de horas, o incêndio havia destruído toda a Brasileirinhas. Felizmente, ninguém se ferira. "A Rita (Cadillac) se afogou com a fumaça, mas já tá tudo bem", comunicava um bombeiro sorridente, que posava para fotos. Fátima foi presa em flagrante e levada pra cadeia, onde ainda permanece.

O que ninguém sabe (e dificilmente irá saber) é que era Josiel mesmo quem atuava em Pecados & Tentações. Ele havia colocado o filme para a namorada assistir de propósito, já sabendo qual seria a reação dela. "Sente ciúme, desgraçada. Quebra tudo". Com o pseudônimo de Tião Risca-Faca, Josiel havia descoberto que com um dote grande, dois Viagras e alguma concentração, pode se chegar longe. "Ganho pra traçar a Rita, a Leila e a Viviane. Por que vou comer essa porcaria à toa?"

Josiel já gravou a continuação do filme, onde atua com Leila Lopes e outra atriz. Quando Tião Risca-Faca arria as calças e roda seu membro em sinal de excitação, Leila avisa à amiga. "Berenice, segura. Nós vamos bater".


Conto inspirado na seguinte notícia:
http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI2855655-EI8141,00.html

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Margarete Tinha Que Encher a Calçada




Margarete mal havia aberto os olhos quando um de seus cinco telefones tocou. "Gente, não posso nem tirar a ramela do olho?" Sentou-se no trono, afobada ("Não tenho tempo pra tanto xixi"), tomou um banho corrido ("Cabelo eu lavo em dia de folga") e colocou o primeiro tailler que achou pela frente ("Rosa? Tô a cara da Sula"). Após sete minutos, desceu as escadas e quase torceu um pé por causa do salto. "Me suicido se ficar de repouso". Gregório, o marido, ria da cena, já cotidiana. "Então fico com tudo". Margarete nem ouviu. "Divina, esquenta um bagel e enrola no alumínio pra mim". E se apalpou. "Cadê minhas chaves?" Gregório puxou conversa sobre trabalho, sabia que assim ele seria ouvido. "Já conseguiram falar com o Rei?" A assessora de imprensa levou uma mão à testa, espalhando os dedos magros. "Você acredita que nem a Mara Maravilha deu certeza?" Divina parou de lustrar a panela na hora. "Pobre não tem vez". Margarete pediu calma. "Fechei com a Carla Perez, seu gospel tá garantido". Danilo percebeu a gravidade do problema. "Se o Roberto não for, pega o Erasmo". Margarete catou as chaves e entortou a boca pro lado. "Agradeça se eu descolar a Ternurinha".

A Calçada da Fama brasileira, um espaço dedicado às personalidades do país (que almejava trazer um pouco de Hollywood à São Paulo), estava prestes a ser inaugurada. E Margarete Solari não havia conseguido um só artista de peso pra inauguração. "Nenhum global. Será que empolgo com a Galisteu?" Enquanto isso, Vívian, dona do empreendimento, explicava para a imprensa: "Quero transformar essa calçada num pólo turístico". E completava. "Ver esse lugar lindo". A Calçada tupiniquim tomaria espaço em Santa Cecília, centro tradicional de São Paulo. "Bem no meio da cracolândia?", perguntava um jornalista do Agora. A empresária rebatia. "O prefeito recebeu meu apelo para o bairro entrar no projeto de revitalização do centro". "E de quem serão os primeiros pés e mãos a deixarem suas marcas por lá?" Vívian enchia o peito. "Da Xuxa, do Roberto Carlos e do Pelé". A imprensa, descrente, nem publicou a matéria. Já um site afirmou “que a Calçada da Fama iria parar São Paulo”. "Isso que é assessoria de imprensa", refletia Margarete, tirando o chapéu pro concorrente.

Duas semanas para o grande dia, a Calçada pronta e nada de artista confirmado. "Vívian, precisamos conversar", setenciou Margarete, grosseiramente direta. A empresária chegou estalando as bijuterias. "Já sei, já sei. O Rei e suas manias. Prometa que ninguém vai estar de marrom". A alienação chocou Margarete. "Escuta, Vívian, o buraco é mais embaixo. Ninguém realmente famoso quer participar da inauguração. Até Big Brother pede cachê". A rainha da noite bateu a mão na mesa. "Mas que absurdo! Jecas! Você já viu a Calçada da Fama em Hollywood?" Margarete respirou fundo. "Só em Uma Linda Mulher". Vívian prosseguiu. "Aquilo é um luxo! 2.130 estrelas preenchidas, tem até as patinhas da Lassie!" A assessora acendeu um cigarro. "Ótimo, acredito em seu bom gosto. Agora me diz o que você acha desses nomes, ok?" Vívian concordou com a cabeça. "Betty Guzzo, os dois Netinhos (o de Paula e o baiano), Vinny, Palmirinha, Oswaldo Montenegro, Gisele Fraga, Ronaldo Ésper, Kelly Key, Marianne, Donizetti, João Kleber, Patrícia Coelho, Leila Lopes, Datena, Alexia Dechamps, Gilberto Barros, Bianca Castanho, Cristina Prochaska, Dudu Nobre, Andréia Sorvetão, Ricardo Macchi, Narjara Turetta, Renata Banhara, Lady Francisco, Matilde Mastrangi, Sarajane, Corona, Marriete, Neuzinha Brizola, Pepê e Nenêm, Alexandre Pires, Cristina Mortágua e todas as meninas do Rouge". Vívian gritou, "ÁÁÁÁ! Eu me mato de trabalhar, convenço Deus e o mundo e você me vem com filha da Vovó Mafalda?", pegou sua bolsa e saiu pisando duro.

A inauguração da Calçada da Fama brasileira foi um sucesso e ganhou destaque até no The New York Times. Dezenas de artistas famosos ficaram de quatro no calçadão de Vívian, deixando suas marcas. A empresária não acreditava em seus olhos e beijava o rosto de Margarete sem parar. Umuá! Umuá! Umuá! Mãos e pés de celebridades concorridíssimas haviam enrijecido no cimento, inclusive das internacionais Whitney Houston e Amy Winehouse.

Margarete aprendeu que bons contatos não fazem milagres, mas pedrinhas de crack podem fazer.


Conto baseado na seguinte notícia:
http://ego.globo.com/ENT/Noticia/0,,MUL302676-5877,00-CALCADA+BRASILEIRA+DA+FAMA+PROMETE+PARAR+SAO+PAULO.html

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A Vida de Setembrino Era o Justin Timberlake




"Aaai! Tô tão feliz que vou enfiar um dedo no cu!", gritava Setembrino, o professor de lambaeróbica, fazendo toda a Fisical estremecer. "Me segurem que eu vou cair!", avisou endurecendo o corpo e espremendo os olhos, como se fechá-los não fosse o suficiente. E começou a cantar, "Ma grimin sexisbé, asiquiouspé coumana raromés", rodando em círculos, com os braços no ar. "Urrul!" Subia e levantava as pernas, repetindo o refrão. "Gorrévi douên, gorrévi douên". Ladecir, recepcionista, coordenadora, contadora e dona do estabelecimento, esbravejava desacreditada. "Ficou louco? Quer perder nossos últimos alunos?" Setembrino dava de ombros. "Meu cu! O Justin Timberlake vem pro Brasil! E um dia antes da Parada!" A patroa fechou a porta do escritório. "Que Timberlake? Que Parada? Quer falar baixo? E pára da falar “cu”!" Setembrino ficou de queixo caído com a ignorância da amiga. "Justin Timberlake, sua falida!" E enumerava com os dedos, descendo-os até onde podia. "Clube do Mickey, N’ Sync, namorou a Britney, cantou pra Gisele no show da Victoria Secret’s, hello!"... Ladecir fez cara de quem tinha mais o que fazer. "Ah, vou saber lá eu? E se apronta que às três você tem aula". O funcionário levantou uma sobrancelha, empinou o nariz cheio de cravos e caminhou até o seu velho PC, acessando o You Tube. "Olha esse homem, você é cega?" Justin Timberlake, de terno, soltava a voz para uma Gisele Bündchen cercada de penachos. "Go ahead, be gone with it / Go ahead, be gone with it". Setembrino, tentando empolgar a amiga, cantava em cima. "Gorrévi douên, gorrévi douên". Ladecir saiu, mas deixou uma frase de repreensão. "Acorda, Setembrino, você está em Barrolândia, Tocantins!" O professor, irritado, não se deu pro vencido. "Cidade com nome de cheque! Vou-me embora daqui!" Pegou a mochila verde-limão, colocou num dos ombros e deu uma paradinha cheia de atitude. "Ah, respondendo sua pergunta: vou pra Parada Gay de São Paulo". E levantou o lábio superior, mostrando os dentes. "O Justin não tem nem roupa pra se se apresentar em Palmas!".

Ladecir achou que o (único) amigo estava blefando, até que o viu arrumando a mala. Uma Samsonite de plástico duro, toda riscada, estava escancarada em cima da cama. Setembrino abriu a gaveta, pegou um adesivo de arco-íris em formato de triângulo e colou abaixo da alça. "Pronto, assim não a perco". A amiga se surpreendeu. "Vai de avião?" Setembrino se exaltou. "Não, é que em São Paulo tem tanta mala, sabe?" E deu uma risada escandalosa, quebrando o pescoço de tanta felicidade. "Arrárrárrá!" Ladecir viu que a coisa era séria, que seria difícil viver sem aquela risada, que a Fisical estava na lama mesmo, então se deciciu: "Vou com você". Setembrino deu as duas mãos para encontrar as delas e empinou o bumbum. "Jura?" Ladecir achatou um lábio no outro, soltando a voz por um canto da boca. "37 anos, solteira, cidade com 4.000 habitantes, pego menos homem que você... Pros diabos!" O professor deu um grito e os dois pularam alto no ar, comemorando. Setembrino aproveitou o momento e colocou o cd do Justin pra tocar, insistindo em Sexy Back. "Râribéééi, notimiuana fina rardisuêêêi". Ladecir pensou em impor uma condição: "Só te acompanho se você não cantar mais essa música ridícula", mas estava muito feliz para isso. E também entrou na dança. "Gorrévi douên, gorrévi douên". Em vinte minutos, haviam deixado aquele quartinho cheio de pôsters, fotos e recortes do Justin Timberlake. Trancaram a academia, pregaram um bilhete na porta ("Fechado por luto") e se mandaram. Como não estavam exatamente ricos, o jeito foi chacoalhar o dedão na estrada. "Sobe o short, amiga. Deixa a racha gorda". Em minutos, lá estavam os dois na boléia de um caminhão, rumo à cidade de São Paulo.

Ao avistar a capital, Setembrino chorou de emoção. "Eu sabia que tinha muito prédio, assisto Caminhos do Coração, mas não imaginava que era tanto assim!" E colocou a cabeça pra fora. "Bom dia, São Paulooo!" Um motoboy, que passava buzinando, quase levou sua cabeça. "Se liga, véio!" O tocantinense nem se importou, usando a expressão que tanto gostava. "Meu cuuu!" Rodney, o motorista do caminhão, deu um largo sorriso, seguido de uma brecada. "Vocês saltam aqui. O metrô é na esquina". Ladecir, em agradecimento, colocou metade do braço dentro da calça dele, fazendo uma rápida massagem. "Brigada". Setembrino já estava na calçada, olhando para todos os lados. "Um shopping! E em formato de pirâmide!" Ladecir riu e abraçou o amigo com uma mão, para saírem andando. Depois de um dia todo perambulando pela cidade, se hospedaram no President’s Inn do Largo da Batata. "Luxo, amiga. Experimenta esse espetinho". Em pouco tempo, estavam empregados. Ladecir vendia móveis na Teodoro Sampaio, Setembrino dava aulas na Supinu’s, que pagava três vezes mais do que a antiga academia da amiga. "Show de bola!" Em questão de dias, alugaram um pequeno apartamento. E brindaram com um champanhe. "Comprei Salton, porque essa cidade é fina e eu subí no tamanquinho!" Dalí pra frente, Setembrino não parou um só instante.

Em menos de dois meses, Setembrino (que, apesar do nome, havia nascido em agosto) conheceu: The Week, A Lôca, Bubu Lounge, Cantho, D-Edge, Farol Madalena, Lov.e Club & Lounge, Vermont Itaim, Tunnel, Blue Space, Bar da Dida, UltraDiesel, Flexx, Club Z, Danger Dance Club, Freedom, Nostro Mundo, Planet G, Plastic Dreams, Shelter Club, SoGo, Tirana, Torre, Trash 80’s, Vegas, 269, Champion Club, For Friends, Fragata, Labirinttus 1, 2 e 3, Station, Lagoa, Cine Saci, Bella Paulista, Frans Café, Gourmet, L’Open, Mestiço, Puri, Tostex, Xuxu e ABC Bailão. Do antigo ídolo, o professor mal se lembrava, desistindo de ir ao show. "160 reais? Tô bem boa!" E, arrogante por suas inúmeras conquistas amorosas, chegou a desdenhá-lo. "Até faria, mas tem carinha de camundongo".

A ficha de Setembrino demorou para cair, mas ele acabou descobrindo que, quando vivemos a nossa vida, pouco importa a dos outros.


Conto baseado na seguinte notícia:
http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/11_101_65414.shtml

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Ana Cristina Só Queria Assistir "O Caçador de Pipas"



"Ela é uma negrinha da Rocinha, não é nenhuma princesinha da Barra!" Gritando e se esperneando no meio de seis PMs que a seguravam, Ana Cristina jogava suas pernas ao alto e depois batia as solas de seus Ked’s no chão. Plau. Plau. Tentando morder Eugênio, o maior dos policiais, a produtora chegava a exibir a campainha de sua garganta: "Me soltem! Seus viados!" Gledson, que era gay, aproveitou a deixa e apertou o braço dela com tanta fúria ("Toma, sua vadia") que, mais tarde, Ana olharia aquele roxo amarelado sem entender nada. "Porra, tô com hanseníase, também?" Clientes e vendedores do shopping, com uma precisão de coral de igreja, gritavam em reivindicação: "Cadeiaaa!" Ana abaixou a cabeça, levantou o olhar e cerrou os dentes, fazendo cara de vilã de filme B. "Seus pobres! POBRES" Uma menina de oito anos, ofendida, chegou perto do cordão de policiais e, talvez por nem mirar direito, acertou seu Mc Casquinha mesclado bem na coxa esquerda da acusada, borrando aquela mini-saia amarela da Yes Brazil. "Biscatinha! Sua mãe não te dá educação, não?" Mais um chacoalhão dos políciais. Dessa vez, de Wilson, pai de duas garotinhas. Ana, ao sair do shopping, deu um grito estrondoso por ter visto o camburão. "NÃÃÃO!" A foto que estampou o principal jornal do Rio de Janeiro mostrava uma mulher de quarenta e um anos totalmente descontrolada, ao lado de uma réplica bizarra da Estátua da Liberdade. "Eu só coloquei aquela vendedora de pipoca no lugar dela. A culpa é da linha amarela!"

Ana Cristina Pereira era uma eterna infeliz por causa de sua aparência (que ela mesma odiava). Baixinha, queria ter nascido com, pelo menos, um metro e setenta. "Merda de miscigenação indígena". Detestava seus cabelos. "Cabelo de empregada do caralho, nem liso e nem crespo". Tinha nojo das manchas que tinha no rosto. "Maldito sol dessa cidade desgraçada". Vivia brava por ter seios grandes. "Vou parecer eternamente gorda por causa disso". E, claro, chegava a ter nojo de sua barriga. "Vou ser eternamente gorda por causa disso". Até por suas coxas roliças, pernas curtas e batatas grossas, Ana possuía um ódio mortal. "Pareço o frango da Sadia". Ela olhava para o espelho e sentia uma vontade enorme de quebrá-lo, de segurar alguns cacos e de se cortar inteira com eles. "Isso. Mais isso. Agora isso." Mas não tinha coragem. Para dar uma compensada, maltratava os outros.

Começava pelo marido, gerente das Casas Bahia da Praia de Botafogo. "Paraíba desgraçado, prefiro mentir que sou solteira". Passava pela caçula. "Carinha de povão, hein, ordinária?" Dava uma alfinetada no filho do meio. "Vê se faz barra na areia e estica um pouco, seu nanico". Depreciava a mais velha. "Nem com uma roupinha melhor tu perde esse ranço de subúrbio, hein, Jaquelline?" E, claro, terminava pela diarista, o alvo mais frágil de todos. "Tu bate antes de entrar, tá me ouvindo? Qualquer dia acho que tu é assaltante e te encho de porrada". Nem os próprios pais, Dona Lindalva e Seu Clóvis, Ana Cristina respeitava. "A inútil e o leiteiro. Pros quintos dos infernos". Ana não tinha diploma, então achava que sua posição de produtora de eventos era mérito exclusivamente seu. "Um dia ainda largo esses velhos lentos, esse marido com uniforme azul e essas crianças melequentas".

No trabalho, Ana também não era bem-vista. Como assistentes conseguem ser tão incompetentes? "Paula, detesto paulista com subemprego. Rua!" "Jéssica, esse penteado de roceira me envergonha. Volta pra Cascavel". "Regiane, tu já é feia só de olhar, pra que botar sandália de dedo?" Até no próprio chefe ela descia a lenha. "Como recebo ordens de um fluminense desclassificado?"

E foi por mais uma palavra preconceituosa ("Negrinha!") que Ana Cristina acabou indo do Shopping Downtown direto pro xilindró, onde permaneceu por três longos anos, sem ao menos entender, de uma vez por todas, que preconceito é crime. E inafiançável. "A culpa é daquele advogadozinho de quinta. Tá fodido na minha mão". E que só ignorantes insistem nos mesmos erros. "Depois, estouro aquela pretinha".

Por todo o tempo em que esteve lá, Ana conseguiu passar despercebida, inventando identidade e história falsas. "Meu nome é Rita de Cássia. Matei o meu marido". As trezentas detentas a aprovaram na hora. "Aêêê. Chega mais, sangue bom". Ana dava sorriso de famoso tirando foto com fã e sentia a espinha gelada toda vez que Odete, a chefona da Ala B, falava ao grupo. "Cadê a tal de Ana Cristina? Preconceito e estrupo de criança a gente não tolera". E foi somente no último dia que a coisa enroscou, bem na hora em que Ana foi libertada. Dita e Hortência, duas carcerárias magrinhas e austeras, a chamaram pelo nome. "Ana Cristina de Paiva, você está livre". A preconceituosa, apesar dos socos, rasteiras e empurrões, conseguiu sair da cela quase intacta, não fosse por metade de um cano de pia atolado em seu traseiro. "Ai, ai!" Com a bunda sangrando, xingou todas elas. "Filhas da puta! Morram secas aí, pilhoentas!" Só quando a produtora já estava completamente aliviada, é que o pior aconteceu.

Da próxima vez que insultar alguém por preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional (e, quem sabe, daqui um tempo, pela orientação sexual), que tal Ana Cristina pensar duas vezes? A Justiça brasileira pode até ser lenta e ineficaz, mas a população não é. Setenta e sete amigos de Lidiane, a vendedora insultada, esperavam pela criminosa quando ela saiu da cadeia. "Rodeia, rodeia. Segura as perna dela".

Melhor não descrever a cena, mas, até hoje, Ana Cristina é conhecida como "A Caçadora de Picas".


Conto baseado na seguinte notícia:
http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI2267835-EI5030,00.html
http://odia.terra.com.br/rio/htm/mulher_e_presa_acusada_de_racismo_em_cinema_da_barra_147045.asp

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Leliane Tinha Medo do Lago de Fogo



O velho computador de tela verde não segurou o tranco quando Leliane enviou a septuagésima nona pergunta: "Beijei a minha amiga. Sou gay?" Apesar da queda de internet ter sido provocada pela conexão discada, a moça de dezenove anos preferiu acreditar num castigo divino. "Tenha misericórdia, meu Pai!" E correu lavar a boca com um Phebo, dando esfregões tão fortes que machucaram a sua pele. "Desgraçada da Salilene, me pegou desprevenida!" Leliane sentia-se cada vez mais suja. "Sou uma porca safada e não mereço o Reino dos Céus." E arrancou os fios da tomada com fúria, tentando se safar das respostas que não queria saber. "Site desacorçoado, antes eu era feliz." Leliane sentia um ódio mortal daquele SexoParaCristao.com, um website criado para sanar as dúvidas sexuais dos fiéis. "Ejacular na cara é crime?" "Olhar mas não pegar pode?" "Cruzada de perna faz queimar no fogo eterno?" Essas e outras indagações eram postadas e respondidas por pessoas que (supostamente) entendiam dos dois assuntos envolvidos: sexo e religião cristã. Leliane, que havia iniciado uma brincadeira de médico tardia com sua vizinha, sentia-se mais pesada a cada questão respondida. "Não tenho perdão e minha xoxota merece secar, apodrecer e cair." Dona Genoveva, a mãe, esbravejava na hora. "Corre lavar essa boca, Leliane! O seu fim é no Lago de Fogo ao lado do diabo!" E lá ia a Culpada (era assim que Leliane assinava suas próprias perguntas) estragar ainda mais os lábios, que rachavam só de chegar perto daquele Phebo Brisa Tropical. Crec. Desde que recebera o link do SexoParaCristao.com, há três meses, a vida de Leliane havia se transformado num inferno. "Tive tanto medo de ir pra lá que acabei chegando antes".

Leliane não estava sozinha. O site, um "Marta Suplicy nas Alturas" (tá aí um nome melhor), havia atrapalhado a vida de muita gente. O moto-táxi paulistano Dirceu de Souza colocara a mão na soda cáustica após receber um "Sim, e muito" para sua pergunta: "Pegar na bunda e no seio é pecado?" Ele que tanto se segurava no casamento, que conseguira se safar de uma prima atentada, que pensava em sua tia mais feia quando o desejo batia à porta. "Tia Déia de cueca, Tia Déia de cueca!" Mas que, em decorrência da profissão, vez ou outra acabava bolinando as passageiras. Ou elas eram afoitas, ou a comissão de frente da donzela era avantajada demais, ou a mão boba do cristão falava mais alto mesmo. "Segura aí, moça!", gritava Dirceu enquanto desviava dos buracos da Marginal Pinheiros, apertando os culotes ingênuos das clientes. Preeen. Aquela pequena diversão diária de um rapaz honesto e cheio de compromissos havia se acabado. Dirceu queimara a mão tão gravemente que acabou sendo aposentado por invalidez. "Merda! Punheta, agora, só com a mão esquerda".

O jovem Crystian D., de 17 anos, também saiu perdendo. Ao perguntar: "Se sexo antes do casamento é pecado, me alivio pensando na minha professora ou carcando meu priminho mais novo?", teve que engolir um: "Qualquer forma de alívio, nesse caso, te leva ao inferno. Queimarás!" Seus hormônios estavam gritando, mas Crystian achou melhor seguir os conselhos do SexoParaCristao.com. Em seu rosto nasceram espinhas enormes, verdadeiras avalanches brancas. Proc. As costuras de suas calças abriram-se ao meio, já que a falta de sexo era descontada na comida. Rac. E, o pior de tudo: descarregou o estoque armazenado de semén na cama da avó, ao final de um sonho erótico. Blug, blug, blug. Crystian apanhou de metade da família e nunca mais tocou trombeta no coral da igreja. "Magoei".

Gláucia Maria foi outra que se ferrou. Enviou a pergunta: "É normal moça solteira pensar em tamanho de pênis?" e recebeu um: "Não, moça solteira nem deve pensar. E, quando se casar, deve se lembrar que quanto maior o pênis, mais pecadora ela será!" Com aquela sentença na cabeça, Gláucia teve um começo de infarto quando viu o pinto de seu marido pela primeira vez. "Esse troço vai me levar direto pra Satanás, Jocimar!" A moça, temente a Deus, havia escolhido um noivo magrinho, pequeno e com as mãos curtinhas. "Esse tem chaveirinho, é com ele mesmo". E só percebeu que essa história de proporção era lenda quando Jocimar arriou as calças. "Tu era pra ser um jegue, seu cretino!".

Mas o pior caso foi o de Antero Soares. Ao enviar um: "Moro há doze anos com Talessa, ela é travesti e a gente se ama muito, estou pecando?", levou um: "Vocês não são dignos nem do inferno. Abaixo do chão do inferno há pedras quentes. O diabo vai cavucar um buraco profundo e enterrar vocês bem no fundo". Antero ficou maluco. "Embaixo do inferno? Sacrilégio!" Talessa, atéia, até tentou abrandar a situação, "Pedras quentes de inferno? Meu cu, caralho!", mas o marido estava irredutível. "Prefiro ser asssassino e ter perdão". E descarregou o trinta e oito inteiro na amada. Pá, pá, pá, pá, pá. Foi preso, condenado e até hoje chora de saudade. "Nenhum companheiro de cela me possui como você, Talessinha".

Os internautas se revoltaram com as histórias e, no dia quinze de março de dois mil e oito, setecentas pessoas (Leliane e mais seiscentos e noventa e nove) tentaram incendiar a casinha onde trabalhava a equipe do site. "Malandros! Filhos da puta! Botem fogo!" A polícia interveio e nada acabou acontecendo. "Sumam daqui!" O que destruiu mesmo o SexoParaCristao.com foi um processo de dois milhões de dólares. Dizer que tudo é pecado, mandar meio mundo pro inferno e acabar com a vida alheia é até permitido. Agora, usar a maçãzinha da Apple pintada de vermelho como logomarca, aí já é demais!



Conto inspirado na seguinte notícia:
http://tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI2222480-EI4802,00.html

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Seu Agostino Aderiu ao "Avoa, Macaca!"



Seu Agostino quase subiu as calças quando a multidão começou a debochar. "Quack, quack, quack! Rendidooo!" Apesar da vergonha ser ainda maior do que seus testículos, o senhor de pêlos brancos acabou segurando o tranco. "Olhem mesmo. Tirem bastante fotos. Querem que eu dê uma viradinha?" Nadir, uma senhora bem afoita que passava por alí, respondeu antes que todo mundo. "Vira, homi! Vira!" Seu Agostino então deu um trezentos e sessenta, exibindo lentamente todos os detalhes de sua anatomia. "Uhhhh", vaiava a multidão. "Bunda murchaaa!" O carioca nem ligava. Sua vida inteira havia sido um vexame, não seria um strip-tease tardio que o mataria. "Como chama mesmo aquela revista de homem? Mereço sair lá?" E fingia achar graça, machucado. "Ele é véio, mas funciona, viu?" O público, atiçado, tirava mais sarro ainda. "Velho ridículo! Se enxerga!" Deixavam claro que ousadia era só para jovens. "Vai pra casa!" Nadir, de tão animada, nem ouvia os insultos. E gesticulava, com brilho nos olhos. "Balança mais!" Não via homem sem roupa há oito anos, estava eufórica. "Dá pulinho!" Se a vida fosse um desenho, os óculos da mulher teriam se trincado naquele momento. Trac. E bastou outros quatro aposentados se despirem (Seu Farias, Seu Valdivino, Seu Bianco e Seu Antônio Marcos) para que ela desse um grito de misericórdia. "Desconjurooo!" A pressão da mulher foi a mil, as vistas se apagaram e Nadir beijou o chão. Ploft.

A sorte não era grande companheira de Agostino Bérgamo. Sua mãe morreu ao dar a luz. "Esse veio pra dá azar", dizia a parteira. A infância foi roubada pela vendinha da família. "Agostino vai entortar de tanto carregar feijõn!", esbravejava a avó. Seus salários eram pagos em mercadorias. "Pão doce de novo, Agostino?", reclamavam as namoradas. Os irmãos eram bem mais velhos. "Deixem esse imprestável aí". Até que ele se casou, conseguiu um emprego na Petrobrás e teve nove filhos. "Agora vai, nona!" Mas a sorte continuava ausente. Sua mulher se mandou. "Me apaixonei, fazer o que?" O emprego o seguiu até sua aposentadoria. "Merda de acomodação". E os filhos se casaram, "Valeu, meu velho!", com exceção do caçula, Maximiliano. Um rapaz sensível, inteligente e alegre que nunca desistiu do pai.

Maximiliano, cansado de ver tanta injustiça, abandono e infelicidade (tanto na família quanto na vida), havia criado o "Projeto Avoa, Macaca!". Tirada de um site extinto que ele a-do-ra-va, a expressão "avoa, macaca!" significa "mandar pro espaço todos aqueles que, de uma forma ou de outra, te fazem uma macaquice. Não te levam a sério, não te valorizam, não te respeitam, não te acham o máximo ou simplesmente te enchem o saco". Patrocinado por uma marca de energético ("Dê um avoa, macaca! com Red Bull"), o projeto saiu do papel e virou um grande evento, sediado no Estádio do Botafogo. A mecânica era simples: para participar, bastava ir até o palco central e, pelo microfone, soltar o verbo. Após o desabafo, o participante pulava numa cama elástica e, enquanto balançava as perninhas no ar, a platéia gritava com vontade. "Avoooa, macaca!" A sensação de alívio era tão grande que as pessoas desciam do palco chorando. Às vezes, precisavam ser socorridas por parentes. "Uááá!" O acontecimento, recheado de DJs e cantores famosos, foi um sucesso. Um colunista do Jornal OGlobo chegou a classificar o "Avoa, Macaca!" como "um belo espanta demônio coletivo".

Como o mundo tá precisando é de sinceridade, frases memoráveis foram ditas aquela noite. "Meu empresário não conseguiu nem uma ponta em Dance, Dance, Dance", dividia uma atriz. "Meu marido só fica frapê", entregava uma lavadeira. "Minha sogra me mostrou a perna aberta", delatava um motoboy. "Meu marido quer manter o CPMF", disparava a mulher de um político. "Minha mãe é periguete no orkut!", desabava um estudante. E assim choviam confissões. "Minha vizinha escuta Enya", "Minha manicure fala no gerúndio", "Meu chefe me põe pra baixo", "Meu amigo passa o dia gongando blogueiro", "Meu irmão quebrou o quarto por causa do Corinthians". Entre cada uma delas, um pulo na cama elástica e um coro de vinte mil pessoas. "Avooooa, macaca!" Seu Agostino, que comparecera somente para prestigiar o filho, acabou se comovendo com tudo aquilo. E decidiu nunca mais engolir sapo.

Sentindo-se forte e determinado, Seu Agostino resolveu dar um "avoa, macaca!" no reajuste injusto de sua aposentadoria. Juntou uma turminha de aposentados, apresentou a expressão (que eles até já conheciam, havia virado jargão da novela) e correu pra calçada da sede da Petrobrás, onde aconteceu a confusão. Em minutos, toda a imprensa brasileira estava lá.

Seu Agostino acabou não conseguindo um aumento, mas de dinheiro ele não pode mais reclamar. Junto com seus quatro amigos, o italiano tira a roupa toda quinta numa antiga boate de strip-tease do Leme. Se antes a mulherada se descabelava com "Os Leopardos", hoje não fica calcinha sobre calcinha em "Os Tigres de Bengala". O que prova que, para uma bunda murcha deixar de ser motivo de piada, basta ela ficar famosa. Na platéia, mulheres bonitas, feias, novas, velhas, magras, gordas, casadas e solteiras se esgoelam pelo quinteto. E, apesar do tamanho da gritaria, uma delas se destaca na multidão. Toda vez que Seu Agostino, Seu Farias, Seu Valdivino, Seu Bianco e Seu Antônio Marcos rasgam suas calças ao meio, Nadir aparece do nada e dá um notório "avoa, macaca!" para aquelas cinco sunguinhas vermelhas.


Conto inspirado na seguinte notícia:
http://odia.terra.com.br/rio/htm/aposentados_da_petrobras_ficam_nus_em_protesto_no_centro_do_rio_130870.asp
http://oglobo.globo.com/economia/mat/2007/10/25/326900634.asp
http://www.estadao.com.br/economia/not_eco70641,0.htm

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Ingrid Correu Sentar na Bacia



Bastou o desfile em traje de banho começar para Ingrid sentir um ardido desgraçado no meio das pernas. O que a fez dar um grito. "Mierda carajo!" Ricky Martin, que ia cantando "Tu Que Puedes Vuélvete" ao pé-de-ouvido de cada candidata, levou um susto e deu pinta. "Ai!" As câmeras do canal Televisa então se voltaram para a participante escandalosa, que estava sorrindo novamente. E o incidente passou despercebido. O casal de apresentadores, Pablo Luis (galã de novela) e Maria Eduarda (Miss Porto Rico 1997) fez um sinal para o ex-Menudo, que voltou a cantarolar. "Las cosas de mi querenciaaa". Elisabeth, Jedith, Celia, Cristina, Sandybell, Maribel, Yaritza, Claudia e Nicole se olharam rapidamente. Vup. Sentiram aquele prazer secreto de maldade compartilhada e deram uma risadinha. "Hu, hu, hu". Ingrid, por sua vez, percebeu uma queimação nas bochechas, mas achou que fosse vergonha. "Esto pasarás". Já quase aliviada, sentiu o biquini em chamas. E estremeceu o auditório. "Hijas de putaaaa!" A transmissão do concurso Miss Porto Rico só não foi um vexame porque, no exato momento do berro, o eterno hit de Ricky invadiu o lugar. "She’s into superstition..." O cantor soltou o rebolado e as misses o acompanharam com empolgação de assistente de palco. Ingrid então pôde roçar uma perna na outra, fazendo um ventinho nas partes de baixo. Tchuc, tchuc. Tchuc, tchuc. E, mesmo com lágrimas nos olhos, segurou a pose até o bloco terminar. Mas foi entrar nos bastidores para sair correndo desesperada, clamando pela ajuda de sua assistente, "Mi culo arde, Paloma!", que a colocou sentada numa bacia. Xiiiiii. Os olhos da candidata, azuis como o mar caribenho, reviraram de puro alívio.

Porto Rico, arquipélago famoso pela produção de misses, pára todo ano para escolher sua representante ao Miss Universo. A cada novembro, belas jovens aterrissam em San Juan acenando ao vento. Acompanhadas de narizes diminuídos, silicones exagerados, dentes facetados e mães sonhadoras. As canditatas desse ano eram todas medianamente parecidas, exceto por Nicole, candidata de Gurabo. Por se destacar um pouco mais, já ensaiava o choro da vitória.

(Confira aqui as misses antes de ler o próximo parágrafo)


Apesar de todas as intervenções cirúrgicas, a maioria das misses carregava ao menos uma imperfeição gritante. Elizabeth, representante de Aguadilla, tinha um par de joanetes horrorosas. Já Jedith, de Barceloneta, além de uma testa de bater bife, possuia nariz de plástica errada. Podia morrer afogada a qualquer tempestade. Os ombros de Celia, de Barranquitas, eram maiores do que seu quadril. E está para nascer uma Miss Universo de cu seco. Cristina só era candidata por ter sido a única opção de Comerío. Sandybell representaria Corozal muito bem, se não tivesse esquecido o pescoço em casa. Utuado teria chance se a Maribel não faltasse um dente. Já o condado de Carolina estava praticamente fora. Havia boato de que a escolhida, Yaritza, era homem. A grana de Claudia, de Santurce, acabara antes dela operar as orelhas de abano. "Tristeza", suspirava Oscar, o coreógrafo do concurso. A vitória da Miss Gurabo, Nicole, estava cada vez mais nítida. Não fosse a inscrição tardia de Ingrid, a candidata de Dorado.

Ingrid Rivera já havia vencido o Miss Mundo Caribe em 2005, o que despertou fúria em suas concorrentes. Elas pediam a desclassificação de candidata por ela ser muito experiente. Na verdade, era tudo despeito mesmo. Ingrid era a mais bonita e ninguém tinha chance. Nicole, diabólica e não disposta a dar sorrisinho de segundo lugar, fez a cabeça das outras. Em questão de horas, aquele bando de réplicas com Q.I. baixo havia formado um batalhão, disposto a combater Ingrid de todas as formas. Primeiro, molharam o chão do hotel para ela escorregar. Quem acabou quebrando a perna foi o coreógrafo, que deixou o saguão inteiro surdo. "Papayonaaa!" Segundo, contrataram um brutamontes pra enchê-la de porrada. O capanga se enganou e trucidou María, representante de Guayama, que entrou em coma. "Imbécil!", xingaram as vilãs em coro. Por último, apelaram para um atirador, mas deixaram bem claro que era só pra acertar um pé. Resultado: Paloma mancaria para sempre. Como num filme pastelão, nada deu certo. A tentativa final acabou ficando para o dia do concurso.

Antes do Miss Puerto Rico começar, Nicole prometeu a um iluminador que faria sexo oral nele. Bastava Miguel esvaziar aquele tubo de spray de pimenta no biquini e na maquiagem de Ingrig. Se ele quisesse uma transa completa, teria que roubar a bolsa dela também. Babando de tesão, Miguelito fez as duas coisas. "Cachilo!", cobrou o rapazinho com o macacão explodindo. Nicole mandou ele se acalmar. O pagamento só viria mais tarde.

Ingrid estava arrasada quando tirou a bunda da bacia. "Estoy cagada, amiga!" Paloma contou sobre o roubo do vestido e, antes que Ingrid tivesse um colapso, chacoalhou a patroa e disse que aquilo não era hora pra isso. E, mesmo com um vestido branco de quinta emprestado por Shelley, a única participante boazinha, vinda de Mayaguez, Ingrid Rivera foi coroada. E aplaudida de pé. Nicole amargou um segundo lugar (sem arriscar o tal sorrisinho), Shelley levou o Miss Simpatia e aquele monte de irmã-metralha ficou a ver navios.

Nicole deveria ter se lembrando que estamos no final de 2007. Tem sempre alguém por perto para filmar e colocar no You Tube. O irmãozinho de uma das misses publicou toda a cena, inclusive a oferta abusada da malfeitora. Nicole Vega foi condenada a três anos de prisão por crime de sabotagem. Ao chegar ao presídio feminino, separado do masculino por apenas um corredor, houve uma rebelião. "Fuego! Fuego!" Miguel, co-autor do crime, a agarrou pelo braço. "Puta! Me voy a mojar el bizcocho". E, sem dó nem piedade, estraçalhou a bandida alí mesmo, na frente de um corredor lotado de presos. "Mas fuerte, cabron!", pediam em coro. Eles, claro, também não ficaram na mão. Nicole foi sendo violentada por todos e, como protegia a vagina, viu cento e doze homens currarem seu traseiro. Ela urrava de dor.

O ditado pode até ser antigo, mas pimenta no cu dos outros continua sendo refresco.

Conto inspirado na seguinte notícia:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u348906.shtml
http://abcnews.go.com/GMA/story?id=3918798&page=1

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Graziela Aceitou o Desafio Activia



"Mãe, me ajuda. Tá saindo alguma coisa de dentro de mim!" Foram as últimas palavras de Graziela antes de correr pro banheiro do avião, com as pernas tão abertas que pareciam um balaio. "Ai. Ai. Ai." Dona Filomena, humilde que só ela, nem se importou com a presença de outros tantos passageiros. E deu um berro. "Foi o cupuaçu"! Desafivelou o cinto de segurança e saiu correndo atrás da filha. "Obra, minha filha. Senta na privada e obra". Graziela só não morreu de vergonha porque não tinha tempo pra isso. Espremeu a barriga inchada, entrou no sanitário e girou o trinco de metal, trocando o aviso verde pelo vermelho. Ocupado. A mãe, há tempos preocupada com a saúde da caçula, dava coordenadas histéricas, amassando o lado direito do rosto naquela portinha gelada. "Relaxa, filha. Dessa vez vai". Yolanda, uma aeromoça com sombras azuis nos olhos e bolinhas de blush nas bochechas, chegou bufando. "Minha senhora, por favor, pare AGORA de gritar". Dona Filomena, nervosa desde a decolagem em Santarém, soltou os cachorros. "Cala tua boca, sua palhaça! Se a merda dessa Gol desse comida pra gente, minha menina não tava desandada". E apontou uma montanha de Nutry que saltava de um compartimento aberto, no fim do corredor. "Toda veiz cês vem com essa barrinha. Cagá no mato. Daí a gente traiz coisa de casa e olha o que acontece". Yolanda ficou sem palavras. Dona Filomena, sem paciência. "Cagô, minha filha?" Uma voz abafada ecoou lá de dentro. "Chama o doutor Salgado, mãe!" Dona Filô correu buscar o médico, que babava no travesseiro.

Graziela havia tido uma adolescência normal, apesar de sua gordura. Aos quatorze, com o corpo formado mas ainda molecota, chegava a brincar com seus quilos extras. Segurava os seios fartos e, um de cada vez, os jogava para cima. Blop, blop. Blop, blop. A mãe, claro, repreendia a menina. "Pára com isso, sua mulambenta!" A filha, só de pirraça, provocava ainda mais. Assoprava o canudo na Coca-Cola, criando uma espuma nojenta. Bruuuu. Levantava a calça jeans pra fazer capotão de Fusca. Vopt. Mastigava a comida e ia tirando da boca aos poucos, rodando uma mão em volta da orelha. "Olha o churros!" Tratava o próprio corpo com desdém, queria mostrar que não estava nem aí. E não estava mesmo. Até o dia em que conheceu Thales, sua paixão platônica da Sala C.

Thales era um gaúcho alto e engraçado que aparecera na escola em agosto, mês em que seu pai foi transferido para o Pará. "Tu sabe o que o elefante falou pra formiguinha quando colocou ela no colo?", perguntava o novo colega. Graziela, toda derretida, ria e roncava ao mesmo tempo, sem nem saber a resposta. "Rá rá rá rooon". Os dois, em questão de dias, se tornaram inseparáveis. Ele passava as tardes no pomar da casa dela, ela mostrava os atrativos da cidade. Quando a fome apertava (ele era magro de ruim), Graziela levava Thales para conhecer alguma comida típica. "Esse é o pato ao tucupi". Ou algum sabor exótico de sorvete. "Taperebá. Prove". O mundo era um lugar perfeito. "Ai, ai". Para estragar tudo, bastou Carlinha Tavares, a menina mais linda da escola, entrar em ação. Numa daquelas baladinhas adolescentes, sem nenhum constrangimento, ela agarrou o sulista. "Bem-vindo ao Pará". Poucos metros dalí, escorregando as costas na parede, uma despedaçada Graziela chorava baixinho. Ela sabia que, assim como o encontro das águas que acontece bem na frente de sua cidade (águas verdes do Tapajós com águas escuras do Amazonas), ela e Thiago não se misturariam. Não emocionalmente. Não enquanto estivesse gorda. Então resolveu emagrecer.

Graziela, por anos e anos, tentou tudo o que é regime. Primeiro, foi o da lua. Passava um dia tomando líquido e no outro arrasava a geladeira. "Frita quibe, Dorinha". O segundo foi o da sopa de cebola. Só conseguiu um bafo desgraçado. "Tu tá é podre, guria", reclamava Thales, protegendo o nariz. A terceira e última tentativa foi a Dieta de Beverly Hills. Graziela até perdeu uns quilos ("Dois quilos e setecentos, mãe!"), mas desmaiava por falta de carboidrato. "Socorre a bolota, vai", dizia Carlinha ao namorado gaúcho, que se desesperava. Para a gordinha enfraquecida, aquilo havia sido um basta. Aos dezenove anos de idade, sem dó nem piedade, Graziela Garcia Pimenta fez uma cirurgia de redução de estômago. Após cinco meses de sofrimento e de trinta quilos perdidos, adivinha quem se apaixonou por ela?

Tudo estava às mil maravilhas quando a barriga de Graziela começou a inchar. "Isso é gases, minha filha. Vai passear", recomendava Dona Filomena. Mas o inchaço só aumentava, o intestino não funcionava. Então Graziela aceitou o Desafio Activia. Tomava um potinho do iogurte toda manhã. Quinze dias depois, nada de banheiro. Revoltada, Dona Filô foi receber seu dinheiro de volta. "Pro meio dos inferno". Graziela parecia uma peixinha de aquário prenha. "Olha com tá dura, mãe. Parece um capacete". E começou a acreditar que sua barriga iria explodir. "Eu vou morrer, mamãe". Este foi o motivo pelo qual pai, mãe, filha, namorado e médico da família estavam naquele avião. Graziela, ao chegar em Belém, precisava ser operada imediatamente.

Doutor Salgado entrou (só Deus sabe como) naquele banheiro minúsculo e se assustou. "Não acredito!" E começou a dar ordens a Graziela. "Vai que sai, vai que sai. Faz força". De fora, a mãe continuava dando apoio. "Coragem, minha filha!" Graziela urrava de dor, chorava, batia os pés no chão. "Ai, doutor, tá me rasgando inteira". Dona Filomena e Yolanda, num instante de trégua, concordaram abismadas. "Que coisa grande!" Graziela deu o grito mais estridente de sua vida. "Aaaaaaaa!" E então tudo se resolveu.

Quando Doutor Salgado fizer uma cirurgia bariátrica novamente, melhor não esquecer nenhum exame. Pode ser que enquanto ele reduz o estômago da paciente, outra coisa cresce alí por perto. Daquele barrigão, quem diria, saiu um lindo bebê de quase quatro quilos. Sua família a chama carinhosamente de Bilinha. Já o resto da cidade, prefere Cocozão.

Conto inspirado na seguinte notícia:
http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI2058596-EI306,00.html
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u344063.shtml

Para tentar o Desafio Activia (que é ótimo e dá resultados):
http://www.danone.com.br/activia/promocao/home.htm

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Vanderson Era Superpoderoso



Dona Emeregilda cantarolava feliz quando viu aquele vulto passando pela porta. Vraaau. Como os passos fortes não cessaram e ela estava sozinha em casa, ficou apavorada. "Jesus, Maria, José!" E derrubou o cestinho de arroz inteiro no chão. Plau! Ao ameaçar chamar sua vizinha, ouviu uma voz caricaturalmente assustadora. "Joga esse alho foraaa". Como todo mundo pode ser enganado, menos uma avó, Dona Emeregilda deu um grito. "Vanderson, quer matar sua vó, desgraçado?" O neto ainda tentou um outro susto, levantando a capa preta de nylon. "Meu nome é Wladi. Joga esse alho fora ou vai sofrer as consequências". Dona Emeregilda não pensou duas vezes: tacou o potão de Arisco em cima do neto. "Vai tomá no meio do seu cu, seu safado. Trabalho que é bom, nada. Você tem vinte e sete ano, lazarento!" E retornou ao que estava fazendo. Vanderson, tentando limpar sua capa, saiu grunhindo. Tanto de raiva pelo xingamento quanto de vergonha pela vadiagem. "Você me paga, reles mortal!"

Vanderson seria mais um moço pacato do interior se não fosse por um pequeno detalhe: saía mordendo as pessoas. A tática era sempre a mesma. Abordava adolescentes emos em shoppings e escolas, marcando reuniões na praça das Cerejeiras, o ponto de encontro mais famoso de um bairro simples de Presidente Prudente. Vestindo roupas pretas, perambulava pelas ruas prometendo aos menores a imortalidade. "Vocês serão anjos dotados de asas, vampiros e guardiões de cemitérios." E distribuía um pequeno flyer feito à mão, dando dia, horário e direção. Já que não acontecia muita coisa na cidade, a rapaziada acabava topando. "Delíxia exa fexta do Wladi. Te experu lá, mixuguinhu". E, mais pela curiosidade, as ravezinhas improvisadas reuniam centenas. Como a verba do vampiro era curta, a decoração da pracinha beirava o ridículo. Panos pretos enormes, pendurados com morcegos feitos de crepon, eram pregados nas árvores. "Parece halloween de clube brega", reclamava uma visitante, trazida pela prima. Um sangue ralo, feito de Catchup D’Ajuda, cobria boa parte do chão. E era lambido por gatos, que logo saíam enjoados. A única bebida da festa era um ponche, que parecia dormir dentro de um refratário plástico. Vermelho, claro. Como decoração do coreto, uma foto gigante da Cláudia Ohana mostrando dentes afiados. Ao som, Vange Leonel. "Calada noite preta, noite preta". Obviamente, a novela Vamp era a única inspiração de Wladi, mas seus súditos eram jovens demais para saber disso.

Wladi Havena, como gostava de ser chamado, tinha tudo esquematizado. Da pracinha, levava os jovens até um sítio e demonstrava suas agilidades físicas em uma espécie de luta. Iááá! Então, dentro de um círculo improvisado, feito de pneus velhos, Wladi ia mordendo toda a galera, pescoço por pescoço. Nhau. Nhau. Nhau. As vítimas tinham a certeza de estar frente a um vampiro: viam suas asas, seus olhos mudando de cor, os caninos crescendo de três a quatro centímetros. Uau! Mal sabiam que o segredo estava no ponche, batizado de LSD. Com um monte de ácido na cabeça, tudo parecia real. Mesmo asas do "Festas & Fantasias" pintadas de preto, lentes amarelas do Skol Beats e dentadura vampiresca de pipoqueiro. Wladi, aproveitando aquele estado de transe coletivo, anunciava: "Em cinco dias, à meia-noite, nos encontraremos no cemitério. Vocês todos estarão transformados." E, imitando Zé do Caixão, soltava gargalhadas maquiavélicas. "Arrárrárrá Rárrárrá!" Uma garota, que nem sequer piscava, falava sozinha. "Ele se transforma mesmo! Que nem o Brad Pitt em Entrevista Com o Vampiro". E, empolgada com o filme, passou a faca nas madeixas encaracoladas. Rrrá. E esperou. Um, dois, vinte minutos. Mas elas não cresceram de novo. "Merda". Dalila, sem querer, ficou a cara da Posh Spice.

Aproveitando toda aquela loucura, Wladi trazia Rainha Atina, uma mulher que estava grávida de seu terceiro filho, ao centro da roda. "Vinde a nós, poderosa". Como o bebê que ela esperava era uma reencarnação do mal, segundo o próprio Wladi, o casal pedia oferendas para evitar seu nascimento. "Joguem tudo o que tiverem na sacolinha. Salvem o mundo". Ao perceber que a galera era dura e que aquelas festinhas de interior não iriam dar em nada (o sonho de Vanderson era comprar o castelo romeno onde morou conde Drácula) e como estava sendo perseguido pela polícia, o vampiro tomou duas decisões: a primeira era se mudar para São Paulo. Dificilmente seria achado lá. A segunda (e maior delas), era abrir uma igreja. A Legião dos Salvadores do Planeta. Ele sabia que, livre de impostos e com mil regalias, criar uma religião no Brasil era uma das formas mais fáceis de enriquecer.

Vanderson já havia criado até os Mandamentos de sua seita, feitos para abrandar algumas fraquezas de sua espécie. Vampiro moderno não morre com a luz do sol (queria gente trabalhando, de vagabundo bastava ele), tem sua imagem refletida no espelho (a capital é cheia de prédio de vidro, não queria desanimar ninguém) e come alho numa boa (sabia que, assim como sua avó, todo quilão de São Paulo adorava o tempero). E tinha um plano certo pra ficar rico. "Vou comprar capas pretas na 25, revender a trezentos reais e logo, logo me mando pra Pensilvânia", planejava satisfeito, confundindo o nome do lugar. Vanderson fez sua mala, se escondeu em casa e esperou sábado chegar. "Com essa enorme legião de vampiros, quem vai me segurar?", alisava a barriga da Rainha Atina, que em casa atendia pelo nome de Francineide.

Chegando ao cemitério, Vanderson não acreditou nos próprios olhos, já anuviados pelas lentes que desciam redondo. Os adolescentes estavam todos deitados, um em cima de cada túmulo, se revirando. Com aquela lua cheia e o breu que havia se formado, a cena era de cinema. Vanderson entrou no clima, pisando em folhas secas propositalmente. Craac, craac. Ao ver a garotada mais de perto, o vampiro notou que seus corpos estavam avermelhados e que, pelas falas delirantes, eles tinham febre alta. "Eu consegui! Eu consegui! Pode entrar, Francineide, eu consegui!" Mas a vitória durou pouco. Em questão de vinte minutos, Vanderson também se sentiu mal. A zonzeira chegou, o chão faltou e ele rodopiou, caindo em cima de um garoto, que estava com a franja vomitada.

Antes de fazer suas reuniões, Vanderson deveria ter se lembrado que estava num país tropical. Aqui, um círculo feito de pneus, cheios de água parada, não transforma ninguém em vampiro, mas cria bastante mosquito. Em seus quase cem anos de existência, Presidente Prudente nunca tinha visto um golpista tão pé-de-chinelo, nem uma epidemia de dengue tão avassaladora.
http://www.blogger.com/img/gl.link.gif



Conto inspirado na seguinte notícia:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u343413.shtml

http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI2054672-EI5030,00.html
http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI2053692-EI5030,00.html

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Darcy Iria Contribuir Para o Acervo



O metrô nem havia parado quando Darcy forçou a porta. "Calma, mãe", pedia a filha num tom quase inaudível. "Calma o cacete, Elizabete Maria. E por que você tá falando baixo? Tem vergonha de mim, TEM?", gritava a professora, chegando a cuspir seco. A mocinha de quatorze anos, já tímida pelas transformações da idade, queria sumir. "Por que isso só acontece comigo?" A mãe, pra piorar, carregava um pacote enorme nas mãos, que trazia transtorno e curiosidade aos outros passageiros. "Dá licença, dá licença". Era uma Tupperware pesada, embrulhada com dezenas de páginas da Conta Mais. Uma senhora, no assento de idosos, pelejava para ler a dieta da Adriana Esteves. O que fez Darcy revirar o objeto. "Gastura de ver os outro de olho na revista da gente". Ela, que não costumava ser grossa e nem mal humorada, não estava num bom dia. Só de se lembrar daquele ex-marido maldito, chegava a chacoalhar sua vasilha. "Seu filho duma égua". E então saltou na estação Trianon/Masp, seguida pela filha, que foi andando bem atrás.

Casada com Edimar por dezoito anos, Darcy apanhou em todos eles. Com cintos, táboas, ferramentas, botinas, garrafas, o que tivesse pela frente. Trégua mesmo, só quando ficou grávida de Elizabete. E a partir do sexto mês, por exigência do médico. "Você não vale nada, sua sem-vergonha. Nada!", repetia o marido toda vez que dava uma surra nela. E foi com essa frase latejando na memória que Darcy se locomoveu de Itaquera até a Avenida Paulista, carregando sua vasilha.

Como muitos outros paulistanos naquela manhã, Darcy se dirigia ao vão do Masp, palco da "Museu dos Relacionamentos Rompidos", uma exposição itinerante criada por um casal de artistas croatas que, em processo de separação, resolveu dar um fim criativo aos objetos que marcaram a relação. Guardanapo com o número do telefone, a primeira foto juntos, alianças de casamento, a bicicleta que dividiam; tudo foi exposto. E, enquanto percorriam a Europa, convidavam as pessoas a contribuir com seus próprios objetos, razão pela qual o acervo chegou ao Brasil bem grandão e maluco.

Um veterano de guerra, antes apaixonado pela assistente social que o atendia, doou uma perna protética. "Mais duradouro que o nosso amor". Já uma dona-de-casa entregou o celular do ex-namorado. "Ele me deu o aparelho pra ver se eu parava de ligar", explicava encabulada. Outra, um pouco mais apaixonada, deixou a cafeteira. "Tem o mesmo aroma dele". E não parava por aí. Um alemão, todo estouradinho, contribuiu com um machado. "Fui viajar e a minha mulher disse que era difícil ficar sem mim. Voltei e ela tava com outro. Como a mobília da vagabunda tava comigo, todo dia eu partia uma peça ao meio". Já um italiano gordo levou um par de algemas com as quais, por fetiche, sua noiva o esqueceu preso à cama. "Soquei a desgraçada. Fico muito nervoso quando passo fome". Tóquio, Nova Iorque, Hong Kong. A exposição fez tanto sucesso que rodou o mundo, vindo parar em São Paulo. E foi aqui que a coisa degringolou de vez.

Darcy desembrulhou sua vasilhona na calçada do Masp, mandou a filha tomar conta e foi bater papo. Queria saber o que as pessoas haviam trazido. Margarete, uma boleira de Sorocaba, mostrava uma espátula suja de sangue. "Descobri que o meu marido tava me chifrando e tuchei isso no rabo dele". Érica, estudante de artes cênicas, desfilava uma calcinha vermelha. "Peguei meu namorado miando na cama". Já Genival, um senhor pernambucano, segurava um penico fedido. "De lembrança, só esse mijinho dela". Soraia, dançarina do ventre, exibia um Chico na virilha, entristecida. "Agora ninguém me come". Dona Francisca, uma velhinha aposentada, afagava uma vela Sete Dias, com saudades. "O Ataulfo sabia me fazer feliz". E era tanta gente chegando, tanto objeto levantado, que o casal da Croácia estava atônito. "To je nemoguce". Um pôster gigante da Joelma chegou a amedrontá-los. E a Paulista parou.

Em menos de meia hora, a avenida mais famosa de São Paulo estava um caos. Motoristas saíam dos carros, bêbados se aglomeraram, vândalos estraçalhavam o BankBoston. Alguns alunos de teatro, em protesto, deitaram-se no meio da rua. "Viva a cultura!" Mas se levantaram rapidinho, quando a polícia desceu o cacete. Os primeiros participantes, já íntimos, começaram a cantar. "Não existe pecado do lado de baixo do Equador". Érica vestiu sua calcinha, o pernambucano colocou o penico na cabeça, a boleira fez da espátula um microfone. Até Elizabete Maria se esqueceu da feiura e arriscou uns passinhos. A única pessoa parada naquele mar de gente era Darcy, que havia acabado de encontrar sua vasilha. E ela estava vazia.

Da próxima vez que fizer picadinho de marido, é melhor Darcy escolher uma Tupperware colorida. Tá cheio de vasilha branca por aí e as pessoas podem se confundir. Kaori, sem prestar a menor atenção, despejou toda aquela carne fresca no tacho e fez um monte de yakisoba. A fila da barraquinha mais famosa da Paulista, que já costumava ser grande, chegou a dobrar a esquina. Todo mundo queria um pouco daquele macarrão delicioso. E não adiantava pechinchar. Darcí podia até não valer nada, mas o seu marido não saía por menos de dois e cinqüenta.


Para saber mais sobre a exposição itinerante:
http://noticias.terra.com.br/popular/interna/0,,OI2025804-EI1141,00.html
http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/7059844.stm
http://www.spiegel.de/international/zeitgeist/0,1518,513103,00.html

Para mandar e-mails ou enviar fotografias para o site da exposição (contando sobre um relacionamento que deu errado e mostrando algum objeto):
http://www.brokenships.com/sto_je_mobr.php

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Luciano Não Agüentava Mais Passar Calor



Era quase meia-noite, mas o termômetro da pracinha acusava quarenta e dois graus. "Quero esse, papai", pedia Lanlara, a filha de dois anos, apontando o dedinho. Era uma máquina de sorvete, daquelas típicas de centro da cidade, com vidros cheios de Ki-Sucos coloridos e muitas abelhas em volta. E o calor em Cuiabá era tanto, mas tanto, que bastou o sorvete cair no biju para derreter em cima da criança, que chorou desconsoladamente. "Uááá". Luciano, o pai, deu de ombros. "Lambe a mãozinha, filha". Já a mãe, Lisnete, grávida de seis meses, também abriu o bocão. Justo ela, que andava com os desejos mais estranhos e acabara de comer uma Colgate Dupla Ação inteira, ficara na mão. "Nosso filho vai nascer com cara de sorvete cagado", sentenciava, debruçando a cabeça na barrigona pra chorar. Luciano tentava colocar panos quentes. "Calma, vamos comprar de palito". Mas, no fundo, ele tinha era raiva daquela cidade-caldeirão, onde ele mal conseguia vestir uma camisa. "Eu ainda tiro a gente desse inferno", prometia às duas, que acabaram se contentando com crepes de salsicha. "E o Liceu (o casal havia combinado que todos os nomes da família começariam com L) não vai nascer com cara de nada", prometeu o pai, dando um beijo na testa da mulher e colocando a filha no colo.

Luciano, determinado, começou a procurar por emprego no dia seguinte. Sabia que o seu cargo de segurança nunca os tiraria dalí. As ofertas de trabalho, como todo brasileiro sabe, estavam muito difíceis. O que fez ele resolver que aceitaria qualquer coisa. Até começar a ouvir os chamados. Uma vizinha quase conseguiu fazê-lo vender Herbalife, mas ele acabou recusando. "Pra quem vou vender barra de proteína de limão?" Já o cunhado tentou levá-lo pra vender cd pirata na feira. Luciano nem quis saber. "Tô fora de bandidagem". Seu colega de academia, Cebola, também fez uma proposta. "Vem dançar em despedidas de solteiras comigo. A gente malha tanto pra quê, rapá?" O futuro pai de Liceu agradeceu, mas nem chegou a pensar na hipótese. Conhecia bem o ciúme doentio da esposa. "Do jeito que a Lisnete é, capaz de parir o filho na hora". E foi um convite inesperado, feito por Vadinho, o cabeleireiro da rua, que acabou atraindo a atenção dele. "Por que você não se candidata a Mister Gay Cuiabá? É um bofe escândalo, tem corpão, simpatia e altura. O concurso é terça. Arrasa, gato!" Luciano achou graça, mas depois percebeu que a pergunta era séria. "Eu nem sou gay, cara". Vado deu uma piscada e falou ao ouvido. "E quem precisa saber, meu amor?". Como ele era um dos jurados, ainda atiçou: "Um voto você já tem".

Como o concurso Mister Gay Cuiabá fazia burburinho apenas no clube Arrasa, onde era sediado, Lisnete acabou concordando, depois de muita encheção de Vadinho. "Mas não vão pegar no pinto dele, né?", perguntava a grávida cismada, arrepiada ao imaginar a cena. "E se tiver uma travesti que confunda ele?" O cabeleireiro se divertia com aquela ingenuidade de quem não conhece bem a coisa. "Prometo que te devolvo o bofe intacto", dizia beijando os dedos cruzados. "Talvez, no máximo, sem uma casquinha", provocava a amiga, que batia em sua bunda magra, protegida por uma bermuda jeans. "A racha topou, a racha topou", saiu batendo o portão, sentindo-se realizado. E, como o faro de uma bicha geralmente não se engana, a noite foi do segurança. "Eu não te falei que você era top top top, seu ridículo?" Luciano era o Mister Gay Cuiabá 2007. E levou quinhentos reais, um vinho Miolo, passe livre durante um ano no Arrasa (O que vou fazer com isso?) e uma passagem de ida e volta pra São Paulo, onde disputaria a etapa nacional. Para ele, que é daqueles que nem sabem que são bonitos, o título havia sido uma surpresa. Já para Homair, Tirso, Kleverson, Reginaldo e Josué Carlos, os outros finalistas, a vitória do participante era óbvia. Ninguém teria batido o seu um metro e noventa, nem seus olhos verdes, muito menos seu peitão de nadador. "Feliz da pintosa que aquëndar esse bofe", parabenizava Periguete, a apresentadora do evento.

Luciano chegou em São Paulo na manhã de sábado, dia do concurso. E tentou disfarçar quando, na saída da sala de desembarque, viu alguém segurando uma plaquinha com seu nome. Luciano – Mister Gay Cuiabá. "Que vexame da porra". Mas logo relaxou, apreciando as belezas da metrópole desconhecida. E se enfiou em seu quarto do Fórmula 1, onde repassou, por horas, as gírias, palavriados e expressões necessários para não entregar a verdade. "Não vou te dizer que todas somos caricatas", havia enfatizado Vadinho, "mas pra ser uma biba loosho tem que se saber algumas coisas". E então Luciano, olhando para o trânsito da Consolação, repetia as palavras anotadas num papel: neca odara, neca matí, padê, nena pavão, aqué, alibãn, loka do cu. O que, seguindo a ordem, quer dizer: pinto grande, pinto pequeno, cocaína, caganeira, dinheiro e polícia. Loka do cu é louca do cu mesmo. Luciano estava pronto e tirou de letra o ensaio do evento, que durou quase a tarde inteira.

O Teatro Fábrica estava lotado na hora em que o Mister Gay Brasil 2007 começou. Luciano, com toda sua beleza e aquele brilho especial, logo se destacou. Arrancou gritos histéricos da platéia quando entrou com o traje de gala. "Me joga na paredeee! Me faz mulheeer!" Ao retornar de sunga, provocou até um desmaio. Plaft! E, claro, ficou entre os três finalistas. Ao lado do Mister Gay Salvador e do Mister Gay Cabo Frio, teve que responder uma pergunta sorteada de última hora, que matou com naturalidade. "O preconceito só será vencido no Brasil quando o governo investir em educação". Nota máxima dos jurados, vibração total da galera, sorriso amarelo dos outros dois participantes. Luciano era o novo Mister Gay Brasil. Mas só por trinta segundos.

O que fez o matogrossense perder o título recém-conquistado não foi a falta de vocabulário, nem a ausência de trejeitos, muito menos o fato de não saber dançar. Todos sabem que existem gays assim. O que tirou o primeiro lugar do Mister Gay Brasil 2007 dele foi sua própria coroação. Ao receber a faixa e ganhar um abraço animado de Sheila Carvalho, a madrinha do concurso, Luciano teve uma baita ereção. Chegou a rasgar a sunga. Rááá. A platéia adorou a cena, as máquinas digitais cegaram o moço e a bicha que havia desmaiado voltou a cair dura no chão. Plaft! Mas regulamentos são regulamentos. O representante de Salvador, até então em segundo lugar, acabou sendo coroado. Luciano voltou para Cuiabá, só que não precisou mais passar calor. Com o dinheiro que ganhou da G Magazine ("Tiraram a coroa dele, nós tiramos a roupa"), conseguiu colocar ar-condicionado em toda a casa e no carro que comprou. Lisnete, Lanlara e Liceu agora podem tomar seus sorvetes cagados com muita mais calma.


Conto inspirado na seguinte notícia:
http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/5_68_63661.shtml
http://missesdobrasil.uniblog.com.br/266069/mister-gay-brasil-2007.html

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Domingos Buscava o Amor de Sua Vida



"Procuro namorada de mais ou menos quarenta anos, que não fume, goste de ler, pratique algum esporte e pese uns sessenta quilos", repetia Domingos ao ler seu próprio cartaz. Queria ter certeza do que dizia. E então saiu pelas ruas de Málaga com uma pilha deles, enfiados no cesto de sua bicicleta rangedora. Inheque, inheque. Ao ver uma árvore, um poste ou uma parede dando sopa, lá ia ele deixar seu recado, exagerando na cola e alisando bem o papel para não deixar bolhinha. "Vem, amor da minha vida, vem", chamava olhando aos céus, com a fé de um jogador que observa a roleta parar. E tirou o celular do bolso para conferir se estava ligado. Isso era muito importante, já que abaixo do anúncio havia seu número de telefone impresso várias vezes, para ser destacado pelas interessadas. "Um de vocês vai ser levado por ela, sabiam?", instigava os pedacinhos de papel, como se eles fossem competir. E saiu cantarolando La Barca, balançando a cabeça em interpretação. "Hoy mi playa se viste de amargura / Porque tu barca tiene que partir / A cruzar otros mares de locura / Cuida que no naufrague tu vivir..." Ele tinha certeza que (dessa vez) daria certo. "Apareça, minha linda. Me faça começar a viver", pedia colocando as duas mãos no lado esquerdo do peito. E voltou para sua casa cheio de esperança, como se a vida (e não apenas sua bicicleta) estivesse mais leve.

Domingos Javier, quarenta e seis anos, carioca, teve a primeira grande paixão ainda bem novinho. Foi nos anos setenta, época em que o amor estava em baixa. "Por que eu não nasci dez anos antes?", lamentava segurando um LP do The Platters. "As pessoas se apaixonavam de verdade". E imaginou um broto com coque postiço e óculos gatinha abrindo um sorriso, ao som de Only You. Mas a realidade era bem diferente. Glorinha, por quem ele estava de quatro, só queria saber de maconha, calça de cintura baixa, discoteca e amor livre. "Se você me arrumar um baseado, eu dou pra você", provocava a garota ao seu ouvido. Domingos, numa reação atípica de seu sexo, saía de perto nervoso, despedaçando a rosa que carregava. "Assim não quero". E chegava a chorar, imaginando sua amada fazendo sexo em troca de entorpecentes. Nem mesmo quando foi levado a um puteiro para perder a virgindade, Domingos abandonou seu romantismo. "Eu só faço amor se você me beijar", deu a condição. E se apaixonou perdidamente pela prostituta. "Eu te tiro daqui, Natália. Te dou uma vida decente". A profissional mandou ele se limpar, jogar o dinheiro na cama e sair. "Cada coisa que me aparece", dizia abismada, soltando a fumaça de seu Capri longo.

Na década de oitenta, já um moço formado, Domingos tentava encontrar seu amor de outras maneiras. Enquanto o Brasil inteiro aguardava a Gretchen rebolar no Qual É a Música?, o eterno apaixonado se inscreveu no Namoro na TV. A vontade de encontrar alguém era mais forte do que a vergonha de aparecer na tevê. Domingos subiu ao palco, colocou seus binóculos e avistou uma pretendente. Maria do Socorro. "Ah, Maria", suspirava o já caidinho Domingos, que mesmo antes de conhecê-la, imaginava como seriam os filhos que teria com ela. Depois de algumas brincadeiras de Sílvio Santos, os dois dançaram lenta, concordaram sorrindo (É namoro!), e foram para o nordeste. Lá, foram filmados conversando num restaurante, andando de mãos dadas ao entardecer, entrelaçando os braços para um beber o champanhe do outro. O que ninguém ficou sabendo ao assistir o programa, é que logo após a última cena, quando Lombardi finalizava com o "E tudo isso graças ao Namoro na TV", Maria havia jogado o braço dele longe. "Sai, asqueroso! Eu vim porque queria conhecer Porto Seguro." Domingos nunca mais assistiu televisão.

Já balzaquiano e sabendo o que queria da vida, Domingos resolveu deixar o Brasil. Anos noventa, mulher de fio dental, Tiazinha, dança da garrafa. Tudo isso era demais pra ele. "Eu quero uma companheira para despir delicadamente, não uma que já vem pelada". E foi embora revoltado para a Espanha, onde trabalha numa ONG e mora até hoje. "Adeus, país do sexo profano". Nesses quatorze anos de vida européia, Domingo Alvarez já tentou encontrar o par perfeito em vários lugares. Primeiro, pela internet. "Não quero me encontrar com alguém que já me mostre as pernas abertas". Depois, nas baladas. "Não vou beijar uma moça que carrega baba de outro". E, por último, em aulas de dança de salão. "Grande porcaria, elas só querem dançar o cha cha cha". Depois de muito tempo desenganado, ele resolveu tentar mais uma vez. E esta foi a razão dos cartazes espalhados, que mais rápido do que ele imaginava, começaram a dar resultados.

O celular de Domingos não parava de tocar. Para não ficar louco, ele comprou um bloco de notas e começou a anotar o nome, a idade e os hobbys de todo mundo que ligava. Esperanza, trinta e nove anos, sincera, amiga e companheira. Mas fumava. Micaela, quarenta e dois anos, prendada e risonha, mas passando dos oitenta quilos. Rosalía, vinte e nove anos, bonita e recatada. Mas não tinha lido nem O Pequeno Príncipe. E assim chovia pretendentes. Verónica, Lucía, Gabriela, Elisa, Eva, Inés, Margarita, Isabel, Carlota, Bárbara, Alicia. Até dois homens deram uma ligada. "Obrigado, Estevan e Ramón, mas não é minha praia", respondeu o homem mais requisitado da cidade, educadamente. Domingos pôde sentir na pele que, tão difícil quanto não ter uma escolha, é ter escolhas demais. "Será que jogo os papéis pra cima e cato um?", se perguntava procurando uma saída. Foi então que apareceu Estela. Ligou numa linda manhã de domingo. Domingos, romântico de carteirinha, já fez as contas na cabeça. "Estela me ligou num domingo, bem na hora em que eu ouvia “Dia de Domingo”, e meu nome é Domingos. É um sinal!" E colocou a música novamente, dançando sozinho e abraçando o nada, como se tivesse um par. "Faz de conta que ainda é cedo / tudo vai ficar por conta da emoção / faz de conta que ainda é cedo / e deixar falar a voz do coração." Em menos de quatro meses, os dois, apaixonadíssimos, se casaram.

Domingos olhava pra Estela andando pela casa e afundava na poltrona de tão feliz. Tudo o que ele sempre sonhara havia acontecido. "Demorou, mas encontrei." Pena que aquela chama cheia de ternuna durou apenas uns seis meses. Pra onde ele ia, ela ia atrás. Domingos acordava e Estela estava o observando. Se ele ia tomar um café, ela vinha com o chantilly. Se ele dizia que estava com fome, ela fazia bolo, torta e churrasquinho (não sabia do que ele estava com vontade). Se ele saía na rua para espairecer, ela o seguia com uma sombrinha, protegendo-o tanto do sol quanto da chuva. Se ele ligava para os parentes no Brasil, ela corria na extensão para dar um "hola". Domingos não agüentava mais. "Que mulher chata!" E, numa manhã bem bonita da Costa do Sol, abandonou a esposa. Enquanto ela tirava uma cárie no dentista e ele a aguardava na sala de espera (único momento do dia em que tinha uma trégüa), Domingos fugiu desesperadamente, sem ao menos ter coragem de olhar pra trás.

De suas quase cinco décadas de romântico inveterado, Domingos não guarda lembrança alguma. "Como eu fui babaca". Apenas dos cartazes espalhados pela cidade é que ele não se arrepende. Nem um pouco. "Ainda chove na minha horta". Volta e meia vai a um encontro, onde galanteia e ludibria uma solteira inocente. "Claro que amanhã eu vou te ligar. Agora fica quieta e chupa". Domingos estava muito feliz, não sabia que ainda poderia fazer sucesso com a mulherada. "Quanto tempo perdido". E quebrou toda sua coleção do Manolo Otero. De aproximação ou afeto, Domingos Alvarez queria era distância. "Troquei seu nome porque estou cansado. Agora me deixa dormir".
Pelo jeito, Nietzsche, em uma de suas frases famosas, mais uma vez tinha razão. "A melhor cura para o amor é ainda aquele remédio eterno: amor retribuído."


Conto inspirado na seguinte notícia:
http://noticias.terra.com.br/popular/interna/0,,OI1994721-EI1141,00.html